Postura corporal: quando nosso interno dialoga com o nosso externo

Postura corporal: quando nosso interno dialoga com o nosso externo

Entre os diversos tópicos relacionados a saúde que desafiam nossa sociedade – como alimentação saudável, praticar atividades físicas, sonos de qualidade – encontra-se também nossa postura corporal. E assim como todas as outras citadas, também costumamos ignorar os pedidos de atenção diários que o nosso corpo nos envia.

O resultado disso todos sabemos: tensão muscular, dores na cervical, incômodo na lombar e por aí vai.

Mesmo assim, ainda neglicenciamos o cuidado com o nosso corpo. Por quê?

Bem, cada um teria sua própria lista de razões a serem elencadas para tal, desde não ter tempo a simplesmente esquecer de realizar simples alongamentos que já nos cairiam como uma benção.

Mas os verdadeiros motivos são um pouco mais profundos do que isso:

Nós nunca aprendemos a conversar com o nosso corpo.

Em um texto anterior sobre a Somatização, comentamos que quando situações biomecânicas e complicações físicas ocorrem, geralmente é o nosso corpo falando conosco.

Ou melhor, a essa altura, ele já está gritando, pois todos os sinais que ele já nos encaminhou foram desprezados.

Isso acontece em grande medida porque somos, desde pequenos, incentivados e treinados a desenvolver muito mais nossa racionalidade do que nosso lado sensoperceptivo – e é justamente nesse lado que a pessoa entra em contato com si mesma e, por consequência, com seu corpo.

Observe essas duas fotos:

A imagem do lado esquerdo mostra como uma paciente estava no começo de uma sessão; à direita, como ela estava uma hora depois.

O que fez com que o corpo fizesse naturalmente esse movimento de alinhamento?

Bem, no começo da consulta a paciente estava agindo em nosso modo de operar normal, no racional. É isso que a posição de seus pés nos fala: ele vai “na direção contrária” de tudo aquilo que a faria voltar para si, e é como se o corpo (através de seus pés) “fugisse” na mesma proporção.

De fato, essa posição de pés meio “dez para as duas” é muito comum em pessoas com o lado racional mais desenvolvido que o sensoperceptivo. O alinhamento para a segunda imagem ocorreu quando esse nosso lado que ignoramos tanto foi estimulado durante a sessão.

Essa é uma simples demonstração de como nosso corpo está dialogando conosco, revelando ao mundo externo o que se passa em nosso mundo interno.

Assim, se não fosse a particularidade e história de vida pessoal de cada um de nós, seria quase possível criar uma espécie de dicionário do nosso corpo.

Os olhos – um mais caído do que o outro quando está passando por algum período de dificuldade, tem essa queda no olhar, eles não estão completamente abertos.

Um ombro mais caído que o outro. A pessoa certamente te diria, em alguma conversa franca, que ela sente que tem carregado mais peso do que aguenta.

Queixas de torcicolo. É quase possível apostar que a pessoa ainda não resolveu alguma pendência com seu passado – algum trauma, alguma dor – e continua a olhar para trás.

Quando alguém anda levemente inclinada – seja com o corpo à frente da cabeça, ou a cabeça mais à frente do corpo: indicação de que o lado racional está ou “segurando” ou “conduzindo” demais essa pessoa.

Da até para descrever esse indivíduo: olho direito e ombro mais caído, dor no pescoço, tronco desalinhado e os pés para fora. Essa pessoa está passando por alguma situação e seu corpo está completamente “em fuga”!

Ou então, lembra dos seus tempos de adolescente?

Quando uma menina que começa desenvolver a mama, geralmente ocorria de ela ficar mais envergonhada, mais tímida, de querer se esconder, então ela trazia os ombros mais à frente. O oposto ocorre com os garotos nessa idade: quando começam a crescer, eles abrem o peito – naquela espécie de “peito de pombo”, tem esse estufamento, essa demonstração de confiança.

Quando uma pessoa é muito sistemática, ela é rígida mentalmente. A pessoa metódica e ordenada costuma ter perda da curvatura da coluna. A coluna dela vai ficando super reta. Essa rigidez mental se traduz na rigidez corporal. É quando ela começa a ter dor na coluna, na lombar, na cervical e não tem essa mobilidade que o corpo precisaria ter.

É por isso que dizemos que como está o nosso corpo, em especial nossa postura, é um reflexo do nosso mundo interno.

CONSCIENTIZA+AÇÃO

Aí você diz: “Ok, Ana Paula, entendi. Consigo interpretar melhor aquilo que o meu corpo sinaliza. E agora?”.

Bem, agora é hora de agir!

Por exemplo, a paciente da foto. Ela pode ter tido esse alinhamento natural e quase imediato do corpo, pois quando trabalhamos com correção de postura, o resultado é bem bacana. O corpo, de fato, responde, mas depois ele volta para o padrão que está acostumado. Porque aquilo que estava interno – como, por exemplo, uma racionalidade excessiva –ainda continua. Assim, quando a pessoa conseguir lidar com essa questão, o corpo permanecerá alinhado.

Ou o caso da pessoa muito sistemática. Mas mesmo quando encontramos um paciente totalmente rígido, sem curvatura nenhuma de coluna, por mais que você faça exercícios de postura para ele ir ganhando essa curvatura, ele ainda assim precisaria ter maior flexibilidade com a sua vida.

É quase uma lógica contraintuitiva. Muitas vezes, a melhora na postura corporal não se dará por completa apenas na correção biomecânica (externalidade), mas sim, no desenvolvimento da consciência corporal (internalidade).

Ou seja, é virando-se para dentro que teremos o resultado que desejamos para fora.

E quando a gente fala dessa questão de consciência, não é só quando algo acontece e você nota, vai além, a pessoa fica tão atenta no corpo dela que ela vai conseguindo caminhar em acordo com ele.

Por isso, que quando essa percepção é constantemente desenvolvida, é preciso agir.

Ou seja: Conscientiza e depois vai para a Ação

Conforme você vai criando essa consciência, o corpo vai te cobrar uma atitude. Não basta ter apenas a consciência, porque se não você não sai da sua zona de conforto.

Dá medo? Dá.

Mas acredite, é muito gostoso quando temos essa descoberta e agimos em alinhamento entre corpo e mente!